quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cinzentos anos dourados

        “Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar”. Mas não foi somente isso. Não sei se você já sentiu isso, mas eu tenho a constante impressão de que eu nasci na época errada, na década errada. É olhar para o lado e se perguntar de onde veio tudo isso, e como chegamos à tal ponto. Não sou um revolucionário, nem tão pouco o cara que vai mudar o mundo. Sou mais um sonhador de mãos atadas, ou melhor, acomodadas. Mãos estas, as mesmas que cospem no papel uma ideologia de mudança puramente imaginária.

         Eu queria ter a capacidade de viver o passado apenas pelas coisas boas e místicas, podendo à qualquer hora voltar para a minha realidade limitada e segura. Eu queria ser do tempo em que os jovens brigavam por suas razões nem sempre justificadas. Dos tempos em que o Barão Vermelho ecoava pelo Circo Voador com seus Codinomes Beija-flor. Do tempo de Chico e suas obras de arte líricas, chamadas de música. Dos tempos de Woodstock e seus defensores de cabelo grande. Pensando nisso tudo, eu sinto uma nostalgia de algo que eu não vivi, uma saudade de algo que eu nunca tive. Talvez por tudo, apesar de cinzento, parecer simples e alegre. Vai ver, é tudo uma ilusão criada pelo romantismo da época. Romantismo no sentido real da palavra. Romantismo dos tempos em que jogava-se bola na rua, o leite vinha em garrafas de vidro, o padeiro passava na sua rua levando sonhos e a cidade inteira se reunia ao lado da TV para assistir à Canarinha jogar. Tempos bons devem ter sido estes..

 
        E toda essa idéia meio anos 60, meio hippie, me deixa num grau de abstração digno de anestesia. São as idéias fluindo e a imaginação indo com a maré. Esse mundo colorido e brilhante demais não é pra mim. Preferia agora estar sentado numa cadeira de balanço, aos pés do Rio de 80, ouvindo um pouco de Joplin e Hendrix. Colocaria pra tudo pra fora num papel e talvez descobrisse que aqueles tempos nem eram tão bons assim. Eram cinzentos e monótonos demais. Mas apesar de tudo, eu teria uma boa música e um tanto de romantismo ao meu lado. Isso me bastaria.

3 comentários:

  1. Monótono não seria.
    Seria o resgate de valores perdidos. De uma felicidade verdadeira e saudável.
    Já tive essa impressão também, aliás ela sempre está comigo! Sonho com o que não vivi.
    Mas o que podemos fazer não é? EU: preservo o que há de bom.

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  2. Com certeza: "Tempos bons devem ter sido estes.."

    " Eu queria ser do tempo em que os jovens brigavam por suas razões nem sempre justificadas." (eu tb) kkkkk.. adorei seu texto!(cmo sempre)

    bjoss ;*

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  3. Não sei... Penso que se tivesse nascido numa outra época, as coisas seriam mais difíceis... Também viajo nesse ar romantico, nessa nostalgia de algo que nunca vivi, gostaria MESMO de ter feito tudo isso e só. Ahhh, não sei o que dizer (pq estou comentando mesmo?). Quero uma máquina do tempo com o botão reset! Caso algo dê errado, uso o 2011 como saída de emergência!
    (whatever, é aquilo tudo que vc já sabe, blábláblá adoro o blog ;D)

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