domingo, 31 de julho de 2011

O meu passado me condena

           Eu já joguei queimada e brinquei de polícia e ladrão. Já colecionei kinder ovo e milhares de álbuns de figurinhas. Já comi chocolate escondido e já deixei de lanchar na escola para comprar mais figurinhas. Eu já ralei o joelho, os cotovelos e já fiz muita cara feia para passar o bom e velho “mertiolate”. Eu já passei horas brincando com bonecos e já falei sozinho enquanto criava minhas brincadeiras de criança. Já soltei pipa com cerol e já joguei pião na rua. Eu já toquei a campainha do vizinho e corri. Eu já deixei de fazer as tarefas do colégio e copiei dos meus amigos mais nerds. Eu já colei em provas e já dei cola pra muita gente. Já gostei de quem não gostava de mim. Já mandei cartas e bilhetes de paquera, daqueles que você manda quando tem 12 anos e depois sente uma vergonha eterna de já ter sido tão infantil. Mas faz parte.

               Já passei tempos sem falar com amigos que sumiram e mesmo assim eles continuam os mesmos bons e confiáveis amigos. Eu já empurrei pessoas na piscina e já fui derrubado. Já menti para proteger quem eu gostava e já menti por achar que isso seria mais cômodo. Já fui sincero demais e acabei falando o que não devia. Eu já fui orgulhoso e não pedi desculpas, e já morri de vontade de ver alguém que mora longe. Já senti saudades do que estava do meu lado, e do que eu nunca tive. Já briguei com grandes amigos e hoje somos ainda mais unidos. Já quis viajar para longe e não voltar. Já estive longe e quis voltar. Já fiz tanta coisa que nem eu mesmo lembro de tudo agora. Eu sei que meu passado é um grande livro com umas páginas rabiscadas, outras coloridas e outras apenas escritas. E aqui vai mais uma pequena anotação nisso tudo.

domingo, 24 de julho de 2011

"Só as mães são felizes"

- Mainhaá, tô saindo!

- Eii, aonde você pensa que você vai?

- Vou sair com o pessoal.

- De novo? Você saiu quarta, quinta.. chegou de madrugada. Você não acha que tá bom não?

- Pô mãe, mas hoje é sexta-feira! Eu vou ficar em casa num sexta-feira? É isso que você quer?

- Por que você não sai mais cedo ou vai pegar um cinema, ou alguma coisa assim mais tranqüila??? Todo dia é bar, farra, festa. Você nunca foi assim. Depois que começou a andar com esse pessoal ficou desse jeito... e eu nem sei mais quem são seus amigos.

- Ah mãe, pelo amor de Deus. É o mesmo pessoal de sempre e tal, os caras do colégio e um pessoal que eu conheci esse ano. Mas é todo mundo tranqüilo. Não tem porque se preocupar.

- Sei. Mas essa coisa de ficar “zanzando” de madrugada por ai é perigoso. Você vê, meu filho, quanto acidente tem por ai. Esse pessoal que bebe e vai dirigir..

- Mas mãe, eu mal bebo. Você sabe muito bem disso.

- Eu sei meu filho, e eu confio em você. Eu não confio é nos outros.

- Aaaah mãe, parou. Eu não vou ficar em casa numa sexta-feira. Tô saindo, tá? Já to atrasado e o pessoal já tá lá no bar.

- Eu não vou dormir bem enquanto você não chegar. Por favor, me ligue e mande mensagem quando você chegar lá. OUVIU? E depois me ligue pra dizer se tá tudo bem.

- Tá, tá, tá. Eu ligo. Affff, nam..

- Não vai me dar um beijo não?

- Ah mãe, tá! Só quero sair, pfff.

- Vai com Deus, meu filho. E não esquece de me ligar viu?

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A razão disso tudo

           Um dia ele se pegou pensando em como havia chegado ali. Em como num piscar de olhos tudo havia mudado: as pessoas, as cores, os ambientes, os hábitos, os gostos. Sua aparência. Ele parecia não acreditar no que via, mas não por ser algo desagradável, e sim pela surpresa que lhe havia causado. E a pergunta continuava rondando a sua cabeça. Por alguns minutos debruçou-se sobre seus braços apoiando lentamente o queixo sobre as mãos e refletiu profundamente sobre a causa daquilo tudo. Era como tentar pescar uma baleia com uma vara de pescar daquelas de festa junina. Tudo aquilo foi gerando uma angústia misturada com pavor e incerteza. Ele nada pode fazer.

           Minutos se passaram, horas se passaram, dias se passaram. E o garoto continuava a se perguntar qual era a razão daquilo tudo. Lembrou-se então de amores e decepções passadas e de coisas que lhe fizeram mudar de atitude e tomar a decisão de mudar por um tempo. Era nisto que tinha culminado esta sua decisão. Os amigos haviam aumentado, mas os poucos e bons permaneciam ali. As cores eram apenas diferentes, afinal agora ele tinha mais tonalidades para pintar sua rotina. Os hábitos haviam mudado como uma resposta natural do que ele havia passado. E sua aparência era uma mera conseqüência do tempo. No fundo, agora o garoto estava mais calmo. Descruzou os braços e relaxou o maxilar. Esticou as pernas e por alguns segundos conseguiu se libertar do pensamento que tanto lhe torturava. Agora tudo parecia simples e lógico. Sem pestanejar colocou sua melhor roupa e seu melhor perfume, como quem se arruma pela última vez. Aquela noite prometia ser mais divertida que o normal. Antes de sair para encontrar com seus novos e velhos amigos, olhou-se no espelho como de rotina, apenas para ver se estava tudo em ordem, e surpreendeu-se ao ver quem estava ali. A pergunta foi inevitável: Como eu vim parar aqui?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A arte de ser prolixo

          Andei estudando o protocolo de interface de comunicação dos canais de comunicação pseudo confiáveis desta rede complexa. Acabei por me surpreender com tamanha complexidade que envolve toda essa gama de aspectos complicados e caóticos, não obstante a constante alteração comportamental dos executores de tal protocolo. Não consegui definir um padrão de execução, logo, a melhoria da interface foi impossibilitada pela falta de dados teóricos capazes de auxiliar na implementação de uma solução prática viável. Talvez um pouco mais de estudos consigam externar essa notória teia de relações que circula dentro de cada elipsóide social desordenado. 

             Existirão tempos de estudo e tempos de análise. Tempos aonde cada erro do algoritmo apontarão para uma solução impossível, e tempos aonde toda a rotina precisará de uma reformulação medial baseada em análises defasadas e inúteis de outrora. Não, eu não estou louco. É só a falta de prosa que me fez girar em círculos sem conseguir definir um tema capaz de canalizar toda essa energia que vem sendo desperdiçada nessa cabeça, agora, vazia. Pensar não é o bastante, é necessário haver qualidade de idéias, e é isso que anda me faltando. Agora, o que eu preciso é analisar estatisticamente cada fato, sua influência no sistema e como cada elemento se comporta para com o todo. Desta forma, far-se-á ao menos uma demasiada forma de ocupação temporal não formalizada, porém útil. E por aqui eu encerro o que mal começou, ou melhor, que muito mal chegou ao fim. Prolixo e relapso, inconstante e corajoso, enigmático e passivo de atitudes. É assim que ando vivendo, e assim vai ser até tudo entrar em ordem.

sábado, 2 de julho de 2011

Time for a change.

        A gente perde um pouco a noção do que é bom quando as coisas não mudam. A estagnação torna qualquer um pálido e sem graça. Tudo vai perdendo a graça até virar parte de uma simples rotina, fazendo com que tudo pareça preto e branco. Não consigo entender a graça de ser sempre feliz, de estar sempre rindo, de tentar transparecer um bem-estar contínuo. Sinceramente, não consigo acreditar em alguém que se julga sempre feliz. 

         Eu gosto de curtir a minha tristeza de vez em quando. De parar pra ver um filme que me faça lembrar algo que dói, de ouvir uma música que machuca, de ver fotos antigas. Tudo isso faz parte, e tudo isso faz bem. A dor só me mostra que eu ainda estou bem vivo, e que eu preciso buscar meios para não sentí-la mais. Não dessa forma. E vai ver é por isso que eu cresço , que eu busco a felicidade de novo, e de novo.. Não acho que a vida seja simples, nem que as pessoas sejam simples. Mas isso é simples, é felicidade e tristeza, uma atrás da outra. Faz parte, e faz bem. Sempre me fez. Não sei se todo esse frio me causou isso, ou se é só a escuridão ali fora. Talvez o estopim mesmo tenha sido o velho amigo Hank. Talvez. Só sei que agora eu quero curtir um pouco dessa minha tristeza e amanhã eu vejo o que faço. Vi na previsão do tempo que amanhã promete muita chuva, frio e melancolia.